Nathan Fielder e o masking no Autismo

Não intencionalmente, na série de documentário cômico O Ensaio, obra de Fielder, é bem exemplificado o fenômeno conhecido como masking, prática comum e infelizmente necessária usada por pessoas autistas.

O que é o masking?

O fenômeno, também conhecido como camuflagem social, é um conjunto de estratégias utilizadas por pessoas autistas que visa minimizar características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em situações sociais. Suprimir movimentos repetitivos, evitar temas de interesse intenso e forçar contato visual são alguns dos exemplos desse método de camuflagem.

O masking é uma resposta à pressão social e à falta de inclusão que marca boa parte dos ambientes sociais, tornando-se necessário para evitar exclusões, bullying e garantir aceitação.

Mas qual a relação com O Ensaio?

Antes de tudo, precisamos entender o contexto da série. Em O Ensaio, acompanhamos Nathan dirigindo experimentos meticulosamente elaborados que simulam situações reais de pessoas comuns, antes de passarem, de fato, por essa situação.

Esse conceito, o desenvolvimento de simulacros da vida cotidiana, se correlaciona fortemente com o masking, retratando, mesmo que de forma indireta, o condicionamento de pessoas autistas e outras neurodivergentes a situações sociais. O enredo lembra outras obras que exploram território semelhante, como o filme Synecdoche, New York (2008), primeiro longa-metragem do roteirista Charlie Kaufman (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), e o livro Remainder (2005), do autor britânico Tom McCarthy. Na série da HBO, há uma dramatização dessas situações que extrai das personas centrais seus comportamentos mais profundos.

No artigo “How Nathan Fielder’s The Rehearsal Affirms My Experience with Autism”, escrito por Sam Rosenberg, pessoa autista, o autor afirma que “o mascaramento é essencialmente o que se pede a cada pessoa nas simulações: representar roteiros sociais e incorporar certos papéis repetidamente, para criar uma maior sensação de previsibilidade e eliminar o máximo possível de danos colaterais.”

No desenrolar dos episódios da primeira temporada, vemos o próprio Nathan colocando-se dentro desse ambiente artificial, simulando ser pai, marido e vivendo numa casa localizada em área remota. Ao longo da temporada, aprofunda-se cada vez mais nessa persona, ao ponto de se distanciar do seu próprio eu e passar a ser apenas a personificação de um roteiro bem estruturado. O dilema principal, genialmente apontado por Rosenberg, é um paradoxo ético complexo: é possível ter experiências genuínas e reais, alcançando esse “verdadeiro eu”, mesmo sob uma máscara artificial?

O Ensaio se tornou uma série aclamada não apenas pelo enredo, mas por compreender com profundidade o comportamento humano e as variadas formas do mascaramento.

No quinto episódio da segunda temporada, Nathan Fielder aborda diretamente o autismo, buscando compreender a relação que sua série possuía com o masking. Desenvolve um subtrama ao se questionar se seria uma pessoa autista, devido às suas dificuldades emocionais em relacionamentos interpessoais. Uma ressalva, também apontada por Rosenberg, foi em relação à especialista que Nathan decidiu buscar: a Dra. Doreen Granpeesheh, conhecida por suas posições pseudocientíficas e pela participação no filme Vaxxed, que propagou a ideia de que vacinas causam autismo.

Mesmo assim, Rosenberg conclui que o episódio “inspirou mais compaixão e consciência em relação às pessoas autistas que são condicionadas a mascarar suas características devido à severidade com que somos julgadas por sermos nós mesmas. Por mais falho que seu método possa ter sido, a coragem de Fielder em usar o mascaramento autista para examinar a era da evitação em que vivemos é louvável, vital e poderosa.”

Em suma, O Ensaio oferece uma perspectiva rara sobre o mascaramento social, confortando quem se identifica e acendendo um debate necessário. O paradoxo que a série levanta permanece em aberto: se a máscara é usada por tempo suficiente, ainda há um rosto por baixo dela?