<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" ><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="4.4.1">Jekyll</generator><link href="https://revistasinedoque.pages.dev/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://revistasinedoque.pages.dev/" rel="alternate" type="text/html" /><updated>2026-06-17T01:48:14+00:00</updated><id>https://revistasinedoque.pages.dev/feed.xml</id><title type="html">revista sinedoque</title><subtitle>Revista Sinédoque</subtitle><entry><title type="html">Não podemos esquecer de Anderson Herzer</title><link href="https://revistasinedoque.pages.dev/artigos/anderson-herzer-a-queda-para-o-alto/" rel="alternate" type="text/html" title="Não podemos esquecer de Anderson Herzer" /><published>2026-06-16T00:00:00+00:00</published><updated>2026-06-16T00:00:00+00:00</updated><id>https://revistasinedoque.pages.dev/artigos/anderson-herzer-a-queda-para-o-alto</id><content type="html" xml:base="https://revistasinedoque.pages.dev/artigos/anderson-herzer-a-queda-para-o-alto/"><![CDATA[<p>Primeiro autor publicado transgênero do Brasil tampouco é lembrado na cidade de onde nasceu, em Rolândia, no norte do Paraná.</p>

<blockquote>
  <table>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Eu decaí, eu persisti</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>tentei por todos os meios ser forte.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Lutei contra o tempo,</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>chorei em silêncio</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>gritei seu nome ao vento.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>fui templo de miséria</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>meu pai, um perdido</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>minha mãe, a megera.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Cresci vendo prantos,</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>dormi em meio à mata</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>chorei gotas sanguíneas</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>sou o pecado, sou a traça.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Eu ouvi um grito de desespero,</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>vi a lenta corrupção,</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>vi o olhar do corruptor,</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>vi uma vida na destruição</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>eu vi o assassinato do amor.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Tentei, venci, a vitória conquistei</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>porém um dia faleci.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Hoje estou em sua lembrança</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>eu sou sua alma oculta</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>e serei sua esperança</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>

  <p>— Anderson Herzer, “A Gota de Sangue”</p>
</blockquote>

<p>É com a “A Gota de Sangue”, que Anderson inicia sua autobiografia <em>A Queda Para o Alto</em>, publicada em 1982 pela Editora Vozes. Poucos meses antes do lançamento de seu primeiro livro, Anderson morreu por suicídio, atirando-se de um viaduto localizado no centro de São Paulo, no dia 10 de agosto de 1982. Seus traumas, adquiridos ao longo dos anos de abandono, abuso, violência, marginalização e transfobia, levaram-no a tirar a própria vida.</p>

<!--more-->

<h2 id="origens">Origens</h2>

<p>Anderson nasceu no dia 10 de junho de 1962, em Rolândia, no Paraná. Seu pai, Pedro Peruzzo, foi assassinado a tiros quando Herzer tinha apenas 3 anos. A única memória que lhe restou do pai foi observando-o em seu caixão, ajoelhado em uma cadeira, junto à irmã.</p>

<p>Sua mãe, Lurdes da Silva Peruzzo, era uma mulher vulgar, termo dado pelo próprio Anderson para referir-se ao ofício de sua genitora. Das poucas memórias que possuía dela, a principal era de ser trancado e deixado a sós quando ela saía para trabalhar. Lurdes viria a falecer pouco tempo depois, vítima de uma IST.</p>

<p>Posteriormente, foi adotado por seus tios e, aos 7 anos, mudou-se com eles para São Paulo. Traumatizado com a perda dos pais, teve uma infância na qual a agressividade tomava conta de seu corpo, envolvendo-se diversas vezes em brigas e discussões com colegas de classe, vizinhos e família. Aos 14, vivia noites regadas a cerveja, caipirinha e fogo-paulista, em um bar-lanchonete chamado Dog. Ali, adquiriu seu primeiro apelido, Nenê, por ser a pessoa mais nova que frequentava o local, comumente habitado por homens com mais de 30 anos. Após um episódio de coma alcoólico, ainda nessa idade, seus pais adotivos colocaram-no à força na Comunidade Terapêutica Enfance (CTE), hospital psiquiátrico infantil. Nunca havia provado nenhum tipo de droga ilícita e teve sua primeira experiência no próprio CTE, junto com outros adolescentes, ingerindo Optalidon, mesmo medicamento que utilizou horas antes de sua morte. Anderson e os demais adolescentes foram expulsos da comunidade após serem descobertos.</p>

<p>Nos meses subsequentes, frequentou terapeutas e psiquiatras, foi medicado e chegou a ser internado em mais duas instituições. Anderson, que via na bebida e nas pândegas noturnas uma forma de escapar dos males que assolaram sua vida, retornou aos bares e, em certo dia, após chegar de mais um frevo, acordou com seus pais, uma mulher e um policial olhando-lhe. Foi posto numa viatura e entregue ao juizado e, ao entrar em uma pequena sala de triagem, caiu-lhe a ficha de que estava sendo inserido na famigerada Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Como o próprio Anderson cita em seu livro, aquilo seria seu encontro direto com a marginalização.</p>

<h2 id="apenas-mais-um-marginal-entre-muitos">Apenas mais um marginal entre muitos</h2>

<p>Anderson se absteve de escrever partes essenciais de sua trajetória seguindo a ordem cronológica dos ocorridos, preocupando-se para que não fosse completamente martirizado pelo leitor desde o início. Herzer faz questão de contar suas fugas, seus problemas com álcool e drogas, o convívio com homens mais velhos em bares, as brigas, as noites nas quais saía e retornava apenas na manhã seguinte, entre outros acontecimentos. O leitor, em meio a tudo isso, pode chegar a dar razão aos pais em relação aos internamentos, que, até esse ponto da leitura, podem parecer atos de benevolência de seus pais adotivos, visando uma vida mais segura para Anderson.</p>

<p>Anderson, antes de contar os horrores que lhe ocorreram durante os 3 anos de Febem, relata o episódio de tentativa de estupro sofrida por parte de seu pai adotivo. Após reagir, afastando-o e fugindo, foi alcançado e golpeado no braço, ocasionando uma fratura. Ao contar para sua mãe adotiva, sofreu diversas ameaças do pai.</p>

<p>A ida para a Febem não foi apenas consequência de seus atos desencadeados pelo trauma da tentativa de abuso sexual. Tempos antes, ao revelar para seu pai que sua mãe estava o traindo, foi culpado pelas brigas geradas a partir disso, e sua mãe adotiva insinuou que Anderson pagaria caro pelo que fez. Infelizmente ela estava certa, e ele realmente pagou. Pagou três anos da sua vida em uma instituição que o colocou como alvo de agressões verbais e físicas por parte dos dirigentes.</p>

<p>Anderson Herzer denuncia o que sofrera durante esse período com uma força descomunal, sendo o primeiro relato de um ex-egresso da Febem. Além de suas colocações em relação ao que passara, também escreveu diversos poemas durante os anos dentro da instituição, percorrendo temas como morte, luto, liberdade e vida.</p>

<p>Mesmo em meio às turbulências que enfrentara, Anderson explorou sua identidade e, posteriormente, descobriu-se como um homem trans, recebendo a priori a alcunha de Bigode, nome dado em homenagem a um ex-namorado que falecera quando Herzer tinha 13 anos, vítima de um acidente de moto. Obviamente, sua nova identidade não foi bem recebida pelos funcionários do instituto, rendendo-lhe uma série de ameaças e ataques transfóbicos.</p>

<p>Em um trecho de sua autobiografia, Anderson denunciou o diretor Humberto Marini Neto, que roubou seus poemas para utilizá-los como propaganda, como um suposto resultado positivo do desenvolvimento cultural que a Febem gerava aos jovens através de seus programas disciplinares. Exasperado, denunciou o fato a Lia Junqueira, à época presidente do Movimento de Defesa do Menor. Lia, ao saber do ocorrido, solicitou ajuda do então Deputado Estadual Eduardo Suplicy que, não satisfeito apenas com a devolução dos poemas, também solicitou a liberação de Anderson Herzer, responsabilizando-se em garantir auxílio financeiro, trabalho, moradia e apoio para publicar seus poemas.</p>

<h2 id="talvez-liberto">Talvez liberto</h2>

<p>Por quase três anos, trabalhou no gabinete de Eduardo Suplicy como Oficial Legislativo. No período, participou da autoria do livro <em>Versejando</em>, ao lado de diversos servidores da Assembleia Legislativa.</p>

<p>Suplicy apresentou-o à escritora Rose Marie Muraro, à época diretora da Editora Vozes, para analisar as possibilidades de ter seus poemas publicados. Rose Marie deu-lhe a ideia de não somente publicar os poemas, mas também escrever sua autobiografia, iniciando então o desenvolvimento de <em>A Queda para o Alto</em>.</p>

<p>Posteriormente, participou de um concurso para ser efetivado na Assembleia, que não se concretizou pois os responsáveis pelo processo duvidaram de sua identidade. Algum tempo após o episódio, foi exonerado. Em meio ao medo e às preocupações em relação ao seu futuro, conversou com Eduardo Suplicy, que buscou animá-lo, pois seu livro estava prestes a ser publicado.</p>

<p>Na noite do dia 10 de agosto de 1982, após sair da Assembleia, passou a um bar, tomou uma dose de cachaça e dirigiu-se até o Viaduto 23 de Maio.</p>]]></content><author><name>João Daniel Temporin</name></author><category term="cultura" /><summary type="html"><![CDATA[Primeiro autor publicado transgênero do Brasil tampouco é lembrado na cidade de onde nasceu, em Rolândia, no norte do Paraná.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://revistasinedoque.pages.dev/assets/img/herzer-capa.jpg" /><media:content medium="image" url="https://revistasinedoque.pages.dev/assets/img/herzer-capa.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry></feed>